O julgamento de Sylvain Kereneur, realizado na Martinica, lança luz sobre uma sequência de crimes que atravessam fronteiras e revelam a vulnerabilidade de mulheres brasileiras na Guiana Francesa. No centro do processo está o assassinato da brasileira Karina Antunes Gama de Souza, morta em território guianense, mas também a memória de Camila, outra mulher cuja morte integra o histórico de violência associado ao réu.
Embora os crimes tenham ocorrido na Guiana Francesa, o julgamento acontece a centenas de quilômetros dali, em um tribunal na Martinica. A distância territorial não é apenas um detalhe administrativo: ela simboliza o deslocamento das vítimas e de suas famílias dentro do próprio sistema de justiça francês. Tanto a família de Karina quanto a do acusado residem na Guiana Francesa, onde os fatos ocorreram.

Karina era brasileira e vivia na Guiana Francesa quando se envolveu com Sylvain Kereneur. O relacionamento, segundo os autos e relatos reunidos ao longo da investigação, terminou de forma trágica. Em maio de 2020, Karina foi assassinada. As circunstâncias do crime revelam um episódio extremo de violência, que não surgiu de forma isolada, mas se insere em um histórico anterior já conhecido pelas autoridades.
Antes da morte de Karina, Kereneur já havia sido implicado em outro caso de morte de mulher, também na Guiana Francesa. A vítima era Camila. O caso não resultou, à época, em uma condenação que o impedisse de circular livremente. Esse ponto é central para a compreensão do julgamento atual: trata-se de um homem que, mesmo após estar associado a um episódio fatal, permaneceu em liberdade e voltou a se relacionar com mulheres brasileiras.
A morte de Karina reacendeu questionamentos sobre as falhas institucionais que antecedem os crimes de feminicídio, especialmente quando envolvem mulheres migrantes. Brasileiras que vivem na Guiana Francesa frequentemente enfrentam isolamento social, barreiras linguísticas, dependência econômica e dificuldades de acesso a redes de proteção. Em muitos casos, a violência só ganha visibilidade quando já é irreversível.
No tribunal, o caso de Karina é analisado como um crime específico, com suas provas, laudos e testemunhos. Para a família, no entanto, ele representa algo maior: a confirmação de que a impunidade do passado abriu caminho para novas mortes. A lembrança de Camila atravessa o julgamento como um alerta ignorado.

“Hoje está acontecendo o segundo dia de julgamento. A justiça precisa ser feita de forma geral, para dar mais visibilidade aos casos de feminicídio. Não é só pela Karina. Se ele ficar impune, ele vai voltar a fazer novas vítimas com toda certeza”, afirmam familiares de Karina.
A fala expressa o sentimento de que o julgamento não pode se limitar à responsabilização individual, mas precisa reconhecer o padrão de violência e as omissões que o tornaram possível. Para a família, a justiça que chega agora é tardia e carrega o peso de não ter chegado antes, quando talvez pudesse ter evitado a morte de Karina.
O deslocamento do julgamento para a Martinica também evidencia a complexidade dos territórios ultramarinos franceses. Crimes cometidos na Guiana Francesa, envolvendo vítimas migrantes, acabam sendo julgados longe do local onde ocorreram, afastando o processo da comunidade diretamente impactada. Para os familiares, isso amplia a sensação de invisibilidade e dificulta o acompanhamento do caso.
Camila, cuja morte antecedeu a de Karina, não tem familiares presentes no julgamento nem vozes públicas que a reivindiquem neste momento. Ainda assim, seu nome permanece ligado ao processo como um marco anterior de violência que não foi interrompida a tempo. A ausência de condenação efetiva naquele momento é apontada como um dos elementos que permitiram que a história se repetisse.

A reportagem que emerge desse julgamento não é apenas a de um crime, mas a de um contexto. Mulheres brasileiras que cruzam fronteiras carregam sonhos, vínculos afetivos e projetos de vida, mas também se deparam com sistemas que nem sempre conseguem, ou querem , protegê-las. Quando a violência acontece, ela tende a ser tratada como exceção, e não como resultado de um padrão.
Para a família de Karina, a expectativa é que o julgamento rompa esse ciclo. Não apenas para que o responsável seja condenado, mas para que a morte de Karina e a memória de Camila não sejam reduzidas a números ou processos arquivados. O que está em disputa, afirmam, é a possibilidade de que outras mulheres não precisem morrer para que sejam ouvidas.
Enquanto o tribunal decide o desfecho do caso, permanece a pergunta que atravessa toda a história: quantas mortes poderiam ter sido evitadas se os sinais anteriores tivessem sido levados a sério? Entre fronteiras, silêncios e atrasos, a justiça agora tenta alcançar crimes que nunca deveriam ter acontecido.




