Povos Indígenas do Oiapoque denunciam falta de comunicação da Petrobras após vazamento

Vazamento em poço da Petrobras reacende temor de desastre ambiental no Amapá.

MACAPÁ – O que era vendido como o passaporte para o desenvolvimento da Margem Equatorial revelou sua face mais perigosa na madrugada do último domingo (04/01). Um incidente técnico no poço Morpho (como foi batizado a perfuração dentro do bloco FZA-M-059), a 175 km da costa do Amapá, resultou no despejo de aproximadamente 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração no oceano. Para os povos indígenas do Oiapoque, o episódio não é apenas uma falha técnica, mas a confirmação de um desastre anunciado que eles tentam evitar há anos.

Embora a Petrobras tente tranquilizar a opinião pública classificando o fluido como “biodegradável”, documentos internos da própria estatal obtidos pelos principais veículos revelam que o incidente foi catalogado com potencial para causar danos ao meio ambiente e riscos à saúde humana. A falha ocorreu a 2.700 metros de profundidade, forçando a paralisação das atividades por pelo menos 15 dias.

Para Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp), o vazamento é o reflexo de uma gestão que ignora quem vive no território. Em entrevista, ela denunciou que as comunidades não foram notificadas oficialmente sobre o ocorrido, o que classifica como uma “grande irresponsabilidade”.

“Nós já viemos alertando sobre a falta de pesquisas, principalmente a falta de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas e um plano de contingência adequado”, afirma Luene. “Não é mais uma preocupação sobre possíveis impactos. Nós já estamos vivenciando os impactos. Esses alertas que fizemos há menos de um ano já são realidade.”

Comunidade indígena Açaizal — Foto: CCPIO/Divulgação

A coordenadora expressa a angústia que domina as aldeias: a incerteza sobre a toxicidade do material e a possibilidade de contaminação chegar às águas que sustentam a vida indígena. “Não sabemos o que são esses fluidos, se eles vão contaminar, se vão chegar nos nossos territórios. Todas essas perguntas ainda não foram respondidas.”

A operação no poço Morpho recebeu o aval do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) em outubro de 2025, após um histórico de negativas técnicas. No entanto, o vazamento — detectado por um veículo operado remotamente (ROV) — expõe a vulnerabilidade da região. A Foz do Amazonas é conhecida por correntes marítimas de extrema força, que no passado já arrastaram sondas da própria Petrobras.

A pressa em transformar a costa amapaense em um “novo pré-sal” tem atropelado, segundo a Apoianp, direitos fundamentais e modos de vida tradicionais. Para os povos originários, o petróleo não traz progresso, mas uma sombra constante sobre sua segurança alimentar e integridade cultural.

Falta de escuta e riscos futuros

A Petrobras, que recentemente arrematou mais 10 blocos na bacia, mantém o discurso de segurança máxima. Mas para quem está na linha de frente, como os povos do Oiapoque, a confiança é nula.

“Esse vazamento já é um alerta e um reflexo dessa falta de escuta a nós”, conclui Luene Karipuna. Enquanto a empresa trabalha para reparar as linhas auxiliares da sonda, os povos indígenas permanecem exigindo que o direito de serem consultados e ouvidos seja finalmente respeitado antes que o fluido de perfuração dê lugar a um vazamento de óleo bruto de proporções irreversíveis.

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