Estudo da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (GI-TOC), coordenado por Gabriel Funari, revela a descentralização das rotas de cocaína, a ascensão do Comando Vermelho e a transformação da costa amapaense em uma porta de saída para a Europa.
A Bacia Amazônica deixou de ser apenas um corredor secundário de passagem para o abastecimento do consumo interno. A região consolidou-se de vez como um dos principais eixos globais de exportação de cocaína com destino à Europa e à África. Mas, se por anos o fluxo esteve concentrado na tradicional rota dos Solimões e no escoamento pelo Rio Amazonas ou pelo Porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA), a geografia do crime sofreu uma reviravolta profunda. Gabriel Funari, coordenador do Observatório da Bacia Amazônica, afirma “o que a gente traz no relatório justamente é que o tráfico na Amazônia ilegal virou um negócio muito mais complexo, com uma variedade de rotas e modalidades de tráfico pela região”.

De acordo com o levantamento da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (GI-TOC), o estado do Amapá emergiu no centro desse novo mapa do narcotráfico transnacional. Entre 2019 e 2024, as forças de segurança dos nove estados da Amazônia Legal registraram um salto de 574% nas apreensões de cocaína, acumulando 118 toneladas no período. Para os pesquisadores, o volume recorde não reflete apenas um endurecimento da repressão, mas a explosão da oferta e a consolidação de cartéis andinos e facções brasileiras como operadoras globais. Sobre essa transição, Funari destaca que “os atores criminais e o Peru nesse mercado sempre ficaram e agora são atores transnacionais, são facções agora que têm conexões com os países vizinhos também”.
A ascensão do Amapá como um polo logístico do crime organizado responde a uma estratégia fria de adaptação. Até meados da década passada, a rota de escoamento amazônica concentrava-se quase inteiramente no Porto de Vila do Conde. No entanto, dois fatores alteraram esse cenário: o endurecimento da fiscalização nos portos paraenses, impulsionado por scanners de alta tecnologia e pela presença contínua da Polícia Federal e da Receita Federal, e a consolidação do domínio territorial maciço do Comando Vermelho (CV) na região metropolitana de Belém, o que acabou expulsando ou sufocando as atividades de outros grupos rivais naquela praça. Explicando a mudança de estado nortista, o pesquisador aponta que “o Amapá passou a ser mais usado inicialmente justamente porque o Comando Vermelho obteve um controle e uma presença maciça ali na região metropolitana de Belém, dificultando as atividades de outros atores criminais, além de um aumento na fiscalização no Porto de Vila do Conde”.
O Amapá ofereceu o cenário ideal com uma vasta malha fluvial e menor densidade de monitoramento policial, destacando-se a região da Ilha de Santana, pequenos arquipélagos fluviais e a proximidade estratégica com o Marajó. Descrevendo a facilidade operacional encontrada pelas facções, Funari relata que “é muito marcante o quanto o Porto realmente não tinha fiscalização e parecia assim um terreno fértil para o crime organizado operar, toda a questão aí da Ilha de Santana e todas as ilhas pequenas ali, a proximidade com o Marajó e a facilidade geográfica de poder esconder drogas”.
A infraestrutura geográfica do Amapá atrai o crime organizado por facilidades operacionais singulares. A costa amapaense funciona como uma antevisão e porta de entrada para os grandes navios mercantes que aguardam na foz do rio autorização para subir o canal em direção a Manaus. Essa pausa na navegação abre uma oportubidade. Utilizando o método conhecido como rip-on/rip-off, mergulhadores ligados ao narcotráfico acoplam fardos de cocaína — carregamentos que frequentemente variam de 400 a 500 quilos ou mais — diretamente nos cascos submersos dos navios de carga. A droga cruza o Oceano Atlântico oculta sob as embarcações comerciais, passando por baixo dos radares alfandegários tradicionais. Detalhando essa dinâmica logística, o coordenador do observatório ressalta que “o Amapá também tem essa questão estratégica de ser uma porta de entrada para os navios que vão para Manaus, oferecendo a oportunidade para os traficantes acoplarem cocaína nos cascos dos navios em uma região com menos monitoramento policial”. A escala dessa nova rota ficou evidente quando, em 2005, autoridades internacionais interceptaram próximo aos Açores, em alto-mar, um semi-submersível carregado com toneladas de cocaína pura que havia partido justamente de Macapá rumo ao mercado europeu.

Além do escoamento marítimo pela foz do rio, o relatório da GI-TOC mapeou uma rota aérea incipiente e altamente perigosa que conecta o norte da Colômbia ao Suriname. Desse ponto de transbordo, aeronaves clandestinas transportam os carregamentos de entorpecentes diretamente para a região do Oiapoque e para os garimpos ilegais encravados no interior do Amapá. Analisando o contexto geopolítico dessa rota, Funari aponta que “os traficantes levam a cocaína de avião para o Suriname e de lá levam também para a região do Oiapoque e dos garimpos do Amapá”, acrescentando sua hipótese de que “essa ligação entre o Amapá e o Suriname para o tráfico de cocaína está crescendo em reação ao que os Estados Unidos estão fazendo no Caribe, tornando muito difícil para os barcos operar naquela região”.
O avanço do narcotráfico no Amapá não se sustenta isoladamente; ele opera em simbiose com um ecossistema de economias ilegais. Com a cotação do ouro mantendo-se em patamares historicamente elevados, o garimpo ilegal na região amazônica transformou-se no mecanismo perfeito para a lavagem de dinheiro e moeda de troca internacional do tráfico de cocaína. Além disso, o relatório alerta que o Amapá entrou de vez na mira geopolítica do crime organizado devido às novas frentes de exploração econômica da região, como a cobiçada prospecção4 de petróleo na Margem Equatorial e a corrida global por minerais críticos. Advertindo sobre os riscos futuros, Gabriel Funari pontua que “o ouro continua com um preço extremamente alto, incentivando convergências entre grupos que se especializam em tráfico de cocaína e o garimpo ilegal, além de toda a questão de petróleo e minerais críticos, tornando o Amapá um território cada vez mais estratégico para o crime organizado transnacional”.
A consolidação de rotas internacionais bilionárias cobra um preço social devastador no estado. Enquanto a taxa de mortes violentas na Amazônia brasileira já atinge patamares alarmantes, superando a média nacional (fixada em 19,1 mortes por 100 mil habitantes em 2025), o Amapá destaca-se negativamente no topo do ranking da violência letal no país. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o estado registrou a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) do Brasil, com um índice expressivo de 42,5 mortes por cada 100 mil habitantes — mais do dobro da média nacional. O estudo aponta também índices elevados de letalidade nos confrontos com forças de segurança. Apontando as maiores apreensões da dinâmica local, o pesquisador enfatiza que o que mais preocupa é “o mesmo padrão de violência e de guerra de facções que vimos acontecer em Manaus e Belém, levando a um aumento da violência e da insegurança no Amapá, além da questão da letalidade policial que é bem fora do padrão”.

Para os investigadores do Observatório da Bacia Amazónica, o avanço implacável destas novas rotas demonstra que a resposta do Estado não pode continuar engessada em abordagens puramente reativas ou encurralada em velhos paradigmas de segurança pública. O combate a esta engrenagem transnacional exige inteligência financeira agressiva para sufocar a simbiose entre o tráfico e o garimpo, cooperação internacional robusta com os países vizinhos e uma fiscalização portuária implacável nos portões de saída para o Atlântico.
O cenário, no entanto, tende a agravar-se se nada for feito a tempo. Projetando o futuro a curto prazo, Gabriel Funari deixa um alerta claro sobre como a convergência de novos interesses económicos lícitos e ilícitos pode ser fatal para a região: ‘Acho que o Amapá é um território que vai ser cada vez mais estratégico para o crime organizado transnacional’. Tendo em conta o peso das novas fronteiras de exploração, como o petróleo e os minerais críticos, o veredito do coordenador do estudo soa como um aviso urgente: ‘Com toda a relevância [do estado] em questões energéticas e de mineração, pelo que a gente sabe do que as fações já fazem na Amazónia, a gente acha que eles vão olhar para o Amapá com cada vez mais atenção’.



